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Segunda-feira, Setembro 29, 2008
Chegou atrasado entre os presentes
cruzou os dedos para não se visto
coçou o bigode com a unha cavalar
alterou tino da voz para falar
mas não conseguiu
riu-se de si
mas ninguém achou engraçado
toda aquela estupidez
afinal o sindicato dos ladrões
é formado por homens sérios
e não parlapatões
tudo bem
resolveu respirar fundo
soltar os ombros
e criar um olhar mau
não conseguiu
sempre fora um homem gentil
equivocado aquele que acredita
na crueldade como original
não, ela se cria, ela é uma invenção
uma interpretação
disse o que tinha que dizer
- sou culpado
e foi deixado vivo
sem pernas, com dentes
quebrados e cabeça
cortada para escrever poesias
em dias de sol e
cantar em noites frias e brancas
debaixa do ponte
mas, para todos nós
era apenas um mendigo e nunca
um herói
se tivesse ao menos uma capa,
falou uma criança
ele se afogou dias depois
num rio de lágrimas
Quarta-feira, Setembro 24, 2008
Às vezes somos um um conhaque na mesa
incomodando os olhos sensíveis das pessoas
Terça-feira, Setembro 23, 2008
No bar do Braguinha, na rotatória do posto Três Avenidas em Limeira, um antigo professor de biologia não hesitou em contar o último diálogo dele com Deus.
Mergulhou o lábio no copo americano lotado de cerveja, deu uma bela lambida com a língua na parte externa da boca rachada de frio, olhou com olhos mortos de sempre e apontou o dedo pra mim com ar prepodente:
- Deus, quando foi fazer o mundo, quis saber minha opinião, se você quer saber... (já agora surpreendentemente triste e sem arrogante).
- Sério!? Mas o que falou pr´ele - perguntei, bastante intrigado.
Ele me olhou transformado. Agora, já tinha um ar bastante irritado.
- Mandei ele dar um tempo, eu tava tomando uma cerveja.
Não demorou, uma prostituta de 13 anos apareceu no bar. Já veio rebolando e vibrando ao som de um pagode sombrio.
Ela se esfregava na junke-box como quem segura num pênis poderoso.
- Ele não esperou. Olha no que deu - apontou o professor com a mão para lado da caixa de música, como que culpando Ele pela impaciência divida.
- É, eu também não gosto de pagode.... - respondi.
Segunda-feira, Setembro 22, 2008
Acordei às 15h e descobri suas mentiras.
Durante a madrugada, havia lutado por todas elas.
Quase como uma profissão de fé.
Agora a tardinha me sinto enganado.
À noite sinto o desejo de te perdoar, só que você não vem pedir desculpas.
Sexta-feira, Setembro 19, 2008
Maria,
deixa eu sangrar aqui sozinho
deixa eu apodrecer
dá um tempo para minha dor
dá um tempo para o meu câncer
vê se me respeita
você parece fazer de tudo para
perder todo conceito
deixa disso, nêga, abre um
sorrisso pro primeiro mulato
que passar e vai com ele
é carnaval
o céu tá estrelado
eu sou apenas um corpo
curvado no fundo da rede
sem violão
e sem dentes
se apega com outros
se entregue
vida é vaidade
a minha idade já partiu
faz tempo
e você nessa jura de
amor pelo que já
perdeu
tão inútil quanto filmes
de sessão da tarde
Quinta-feira, Setembro 18, 2008
"Tom Maior" é de longe minha faixa preferida do novo disco da cantora Mart´nália, chamado "Madrugada".
O despejo do sotaque carioca em cada estrofe dessa canção é a intensidade necessária do que posso chamar de originalidade em estado bruto.
A composição colossal é do pai dela, Martinho da Vila, e remete ao samba-exaltação que marcou o período da ditadura. Eu disse remete, talvez nem seja desse período.
Contudo, em tempos atuais e numa voz rouca que lembra Elza Soares misturada com uma doçura intrépida a la Djavan, a sonoridade e a intepretação de Mart´nália nos remete ao um certo de grau de esperança do qual estamos (estou?) carentes.
O samba faz isso pela manhã.
Citar Djavan não foi mero acaso, pois a "Alegre Menina" ganhou um suingue embriagador. Será ousadia dizer que ficou melhor do que a original? Bobagem. É uma discussão que não tem sentido, as duas dão estratos de prazeres diferenciados.
Uma rápida zappeada no site mostra que cantora tem quatro cd´s gravados e um DVD.
O último disco dela chama-se "Menino do Rio" e foi dirigido pela Maria Bethânia.
Se a canção mais esperançosa do álbum é Tom Mario, a mais divertida é a Don´t Worry Be Happy. Clique na imagem e cai direto na conta do Mayspace dela e ouça o álbum - depois, se puder, compre o cd. :O)
Quarta-feira, Setembro 17, 2008
Começa hoje o Festival Paulista de Circo 2008 em Limeira. Eu já não gosto da ideia (a palavra está grafada de acordo com a nova diretriz ortográfica da língua portuguesa) do circo como mágia. A elitização e especularização das atrações me afastaram. Para mim o circo sempre foi algo simples, quase primitivo. O meu último contato com o circo foi para fazer um perfil de um palhaço. Leia aí:
[Perfil
Capotão, um palhaço tagarela
Bem que dona Ivone alertou: "Ele fala bastante, só eu mesmo para agüentar". O alerta foi pura gozação, mas era pagar para ver - afinal era a terceira tentativa de entrevistar o palhaço mais antigo do Circo di Napoli.
Na primeira vez, José Carlos Pinheiro não estava. Na segunda, estava dormindo sob efeito de um remédio para diabetes. Desta vez, porém, ele surgiu na porta do trailler espichando uma camisa azul puída dentro de um corpo senil, com pés descalços, metido numa calça de moleton cinza.
Ele tem pouco mais de 1,65 m e pesa em torno de 68 quilos. Esconde a calvície com um boné preto que esparrama os restos de cabelos laterais - espessos e brancos - em cima das orelhas grossas. Fala acima do tom, quase gritando, numa voz nítida e segura. Qualquer um duvidaria que aquele homem seria Capotão.
A dissociação da imagem dele com a do palhaço já o incomodava no início da carreira no Circo Teatro Amazonas. "Fazia muito sucesso como palhaço Tripinha e as meninas queriam saber quem eu era. O dono do circo, seu Crisótomo, me proibiu de mostrar o rosto com medo de perder público", conta, esforçando-se para a história parecer verídica.
Foram 30 minutos sem uma pergunta. Capotão seguia freneticamente falando, sempre com pausas drásticas para lembrar uma palavra ou nomes de testemunhas dos episódios.
Na sala, sentado num sofá vermelho, junto com Juvenal Antena, o gato de estimação da casa, Pinheiro se perdia em pensamentos saudosistas. "Na época em que trabalhava como porteiro, as pessoas vestiam terno e gravata para ir ao circo", fala.
Os olhos azuis daquele homem de 62 anos se agigantavam perante aquelas memórias. Sentindo-se mais à vontade, ele quase ordenou: "Vamos lá para o quarto". Lá, contou um segredo. "Aqui assisto aos meus filmes pornôs e componho de madrugada sem perturbar ninguém".
É um espaço miúdo. Ali, Pinheiro revelou que a maior alegria que teve atuando foi quando uma criança com Síndrome de Down fugiu da platéia, entrou no picadeiro e foi abraçá-lo. "Dei um beijo nela. Na hora o público aplaudiu o gesto pelo carinho, pela cena. Aquilo mexeu muito comigo", rememorou.
"INVENÇÕES"
No quarto, há uma cama de solteiro, um aparelho de TV, um DVD e um armário modesto. Em cima da cama, um violão e um caderno. A caligrafia desenhada registra "algumas invenções e composições". Pela primeira vez Pinheiro ficou tímido. "Deixa as invenções para lá", cortou.
Ele queria mesmo era falar da canção "Picadeiro da vida", composta e gravada por ele. Pôs o CD para tocar. "Tenho que gravar de novo, percebeu que no final eu desafino?", falou em tom sério e preocupado. Depois esclareceu: "Essa música conta a história da minha vida e de como conheci minha mulher". Há 46 anos ele trabalha no picadeiro. Comprou o circo em parceria com o irmão Beto.
Após vários desentendimentos, cada um pegou sua lona e foi levar sua vida. Não é uma vida ruim, apesar do baixo público. Pinheiro tem orgulho dos filhos Eduardo, Luciana e Alexandre. E se derrete ao falar do neto. "Este nasceu com os dons, viu!? É melhor que eu, é melhor que o pai dele no trapézio. E tem só sete anos, hein? Dia 28 completa oito", contou.
Para mostrar que está realizado, Pinheiro mostra três fotos emolduradas. Cada uma representa uma fase da vida dele. Na primeira, ele toca um violão, pernas cruzadas, pele de vinte e poucos anos, magro, nariz de boxeador e dentes alinhados.
Na segunda, está com quase 100 quilos, barriga avantajada, vestindo uma camisa listrada, barba branca e rala, ao lado de um jipe seminovo. A terceira é mais atual: barba longa e branca, cerca de 70 quilos e em frente ao trailler após passar por um drástica cirurgia de redução de estômago em virtude de uma úlcera.
De qual época tem mais saudade? "Com certeza da primeira, mas se for para passar por tudo que passei na minha vida preferia ficar na fase que estou hoje", respondeu, sem titubear.]
Terça-feira, Setembro 16, 2008
Volta e meio eu lembro de ti
atribuo uma infelicidade fajunta
a sorte de não de ter por perto
apenas para dizer que a perda
proposital da tua vida
refresca minha individualidade
me traz um alívio à alma
como um sossego tácito
o esgoto corre devagar na
minha memória
às vezes fede pouco
às vezes fede muito como hoje
de qualquer modo
gosto de pensar na tua
impossiblidade
e na tristeza profunda, se de fato
você tivesse existido hoje
em franco desenvolvutura vital
sinto me triste por tê-lo
impedido de vir
mas meu egoísmo faz
sombra sobre a tristeza
louvo minha decisão
sobre você
eu não peço perdão
e não me orgulho disso
Quarta-feira, Setembro 10, 2008
A musicalidade da primeira faixa do álbum Chapter 9, The Man From Oldest Building, é um poderoso relaxante. É importante ouví-la em volume crescente. Aos poucos você perceber ser desarmado pelo instrumental. A batida sensualíssima da baterista e voz introspectiva de Ed Motta vão tomando conta do ambiente. A presença marcante do sons metalizados dão uma aura psicodélica para o disco. As batidas sincopadas seguram você no chão como dá para sentir em "You Supposed To Be". Todas as faixas do álbum são em cantadas em inglês. Uma marca que o artista vem carregando nos últimos trabalhos. O melhor de tudo é que dá para Chapter 9. Mas se eu tivesse grana, com certeza compraria o álbum pela qualidade do som.
Terça-feira, Setembro 09, 2008
O filme "Noel - O poeta da Vila" é um holofote jorrando luz em meio a biografia desconhecida do compositor mais querido da Vila Isabel, Noel Rosa. Um achado para quem gosta de samba e pretende entender o um pouco do 'DNA' da bossa-nova.
Embora não seja um filme abrilhantado, com problemas inclusive de áudio, uma característica muito comum dos filmes brasileiros na década 90 - época do sepultamento do cinema brasileiro, problema plenamente suplantada após a retomada da produção nacional com "Carlota Joaquina" -, o filme do diretor Ricardo Van Steen é cativante.
Steen declarou disse em entrevista que demorou 10 anos para viabilizar o filme.
O entrelaçamento da vida do poeta com outros ilustres boêmios como Mário Lago e Cartola é souvenir do filme. Steen procurou mostrar o lado bem humorado do autor do samba "Gago apaixonado". Apesar do visível esforço do ator Rafael Raposo, como protagonista da história, ele não agrada. Mas como o enredo é bem mais rico, ele também não atrapalha.
Cheguei com 15 minutos de atraso no Sesi de Rio Claro , como nunca frequentado o espaço, achei bastante interessante o projeto Fiesp/Sesi.
Na realidade, só faltou um debate no final do filme e público como não poderia deixar de ser, era bem magro.
Domingo, Setembro 07, 2008
O Sesi de Rio Claro exibe amanhã o filme, "Noel - O poeta da Vila", um filme sobre a vida do sambista que compôs canções atemporais como "Com que roupa?" e o "O gago apaixonado".
Na opinião do músico Maurício Pereira, Noel foi um dos primeiros músicos do país a transformar o samba do morro e em uma música comercialmente vendável e que teria atingido uma linguagem sofisticada, do ponto de vista "comercial", para se tocar em rádio e em lojas, na década de 30 e 40.
"Ele foi um cara pop naquela época, transformou o samba e um produto como sabão em pó, que vendeu porque tinha um formato A + B e um refrão. Algo que cabia perfeitamento para a rádio", falou o músico sobre o trabalho do ex-aluno do curso de medicina do Rio, no programa Dialogo Impertinetes da TV Sesc.
Noel morreu aos 26 anos e compôs sambas engraçados e outros filosóficos como os versos de "Filosofia". Noel foi um dos responsáveis pela projeção do samba além-morro, numa época em que tocar violão era coisa de vagabundo.
A entrada é franca. O Sesi fica na avenida M-29, 441, Jd. Floridiana.
Terça-feira, Setembro 02, 2008
Embora não conheça muitas das canções do carioca Luiz Melodia, sinto-me ligado a ele pelo fato dele ter nascido no Morro do Estácio. Lugar que conheci quando estive no Rio. O álbum dele lançado este ano "Estação Melodia" é aconchegante e faz você mexer os ombros e cabeça de leve, acompanhando o ritmo. A primeira canção que me chamou atenção foi a "Dama Ideal". Ela transa muito bem com estilo Moreira da Silva, o nosso Kid Morengueira. Um samba de partido alto classudo e bem humorado.
Com um voz de bronze Melodia não versa sobre temas novos, canta antigas intrigas raciais como em "O neguinho e a senhorita", na qual ele conta a paixão de uma senhorita por uma neguinho do morro. Mas a senhorita, "mesmo com preconceito de cor", foi morar na colina com o "neguinho compositor". E desconhecido Luiz Carlos dos Santos, esse tal de Luiz Melodia, finaliza com "gostou do samba e hoje vive muito bem, ela devia nascer pobre também". Flauta e o vilão são instrumentos de maior textura nessa canção. O último álbum dele foi lançado em 2003. Dá para ouvir coisas dele no Luiz Melodia.
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