Paulo Corrêa
 

 
Este blog é um exercício sobre tudo que vejo e leio. Ou seja, quase nada. :O)
 
 
   
 
Sábado, Julho 26, 2008
 

como são lindos
esses rapazes do ensino médio
com seus tênis sujos
sem o cadarço

são quase irreais
esses rapazes do ensino médio
com seu gel no cabelo
e aparelhos nos dentes
como são belos
esses rapazes do ensino médio
com aquelas calças de grife
folgadíssima no corpo novo

como me encantam
esses rapazes anafalbetos
do ensino médio
fumando maconha na Praça
antes de frequentar à sala de aula

como são gozados esses rapazes
do ensino médio
devorando bolachas recheadas e
socando uns aos outros
só para mostrar
seus músculos púberes para
as meninas que fingem não
gostar da agressividade
contuntende dos rapazes
do ensino médio

como são menores
esses garotos
do ensino médio
com seus hálitos
de Lotus misturado com aroma
da bala chita

são volúveis em suas crises
crises quase tocantes
quase sincera
quase lógica

como são senis esses
rapazes de ensino médio
secos como ameixas
bentos como prostitutas
de uma alegria rasa e
calcinante

Eternos dentro de ternos
brancos em dia de Crisma
tão lindos esses rapazes
do ensino médio
e êfemeros como um
cometa que passa rente
a minha janela


Sábado, Julho 12, 2008
 

No Centro de São José dos Campos, na rua J.M Barros, mora um oftalmologista. Mas o local no qual o médico formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR) mora não tem CEP, número ou campainha. A casa do médico não tem tapete, tem carpetes. Na casa do médico não tem armário, porta-malas. Na casa do médico não há cama, há um banco de motorista. O Cytroen, ano 1997, é a residência oficial do doutor César há quase um ano. Uma depressão profunda após um pressão de separação draumático e uma alegada "operação de sabotagem" levaram o oftalmologista a morar na rua, dentro do seu carro branco. César tem uma filha de 18 anos. Mas prefere não manter contato. De vez em quando um sobrinho leva uma roupa para ele.
O guardado de carros da rua J.M Barros dignóstica: "é pobrema de cabeça, coitado". César usa uma calça branca, único vestígio de um dia foi um médico. Usa um óculos de armação rayban devidamente emoldurado com uma fita isolante preta que fixa a haste nas lentes. É magro, usa um suéter de feira marrom, sobre uma camisa pólo amarelo-suja. A cárie arrebentou-lhe os dentes. Não cheira mal, mas também não cheira bem. Com uma voz mansa conta, com lapsos sua história, e pede encarecidamente para não ser fotografado. "Vai me prejudicar ainda mais". Os cabelos brancos penteados para o lado demonstram uma sobra de vaidade. Mas o rosto é cansado como a memória que parece falhar, pergunta meu nome, sete vezes durante uma conversa de mais de 40 minutos. César não é exatamente um mendigo, não fala como mendigo, não se porta como tal. De alguma forma é carismático, ri baixo, sempre com a mão no bolso, e reside nele uma decadência elegante. Costuma se assear numa praça da região, usa banheiros de restaurentes e bares chinfris onde costuma comer. Diz receber uma espécie de subvenção de uma entidade médica do qual ainda é sócio. "Conta com a solidariedade destes colegas", pronuncia num tom formal, quando pergunto como ele obtém dinheiro para sobreviver. Todo seu patrimônio teria ido parar nas mãos de duas ex-esposas. "As mulheres são terríveis", arrisca um gracejo meio sem jeito enquanto caminha pela rua com seus passos miúdos de um homem de 1,65m. Aos 56 anos tem o desejo de vender uma casa na Vila de Industrial. Segundo o oftalmologista, foi a única coisa que lhe restou na vida. Ao dizer isso pergunta meu nome mais uma vez. "Não gostaria de ver uma reportagem sobre mim, não sou mendigo. Estou passando por uma situação difícil... (pausa). Pretendo recomeçar minha vida em São Paulo. Acho que você pode escrever sobre moradores de rua, não citar meu caso. Nesse tempo que vivo por aqui vejo muita gente sofrendo por falta de assistência pública. Não é o meu caso, acho que se você focasse nisso (tira as mãos do bolso e faz um gesto em forma de garra) seria muito mais benéfico e ajudaria pessoas que realmente precisam de ajuda", discursou. Despediu-se afavelmente.

 

 
   
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