O Sesi de Rio Claro exibe amanhã o filme, "Noel - O poeta da Vila", um filme sobre a vida do sambista que compôs canções atemporais como "Com que roupa?" e o "O gago apaixonado".
Na opinião do músico Maurício Pereira, Noel foi um dos primeiros músicos do país a transformar o samba do morro e em uma música comercialmente vendável e que teria atingido uma linguagem sofisticada, do ponto de vista "comercial", para se tocar em rádio e em lojas, na década de 30 e 40.
"Ele foi um cara pop naquela época, transformou o samba e um produto como sabão em pó, que vendeu porque tinha um formato A + B e um refrão. Algo que cabia perfeitamento para a rádio", falou o músico sobre o trabalho do ex-aluno do curso de medicina do Rio, no programa Dialogo Impertinetes da TV Sesc.
Noel morreu aos 26 anos e compôs sambas engraçados e outros filosóficos como os versos de "Filosofia". Noel foi um dos responsáveis pela projeção do samba além-morro, numa época em que tocar violão era coisa de vagabundo.
A entrada é franca. O Sesi fica na avenida M-29, 441, Jd. Floridiana.
Embora não conheça muitas das canções do carioca Luiz Melodia, sinto-me ligado a ele pelo fato dele ter nascido no Morro do Estácio. Lugar que conheci quando estive no Rio. O álbum dele lançado este ano "Estação Melodia" é aconchegante e faz você mexer os ombros e cabeça de leve, acompanhando o ritmo. A primeira canção que me chamou atenção foi a "Dama Ideal". Ela transa muito bem com estilo Moreira da Silva, o nosso Kid Morengueira. Um samba de partido alto classudo e bem humorado.
Com um voz de bronze Melodia não versa sobre temas novos, canta antigas intrigas raciais como em "O neguinho e a senhorita", na qual ele conta a paixão de uma senhorita por uma neguinho do morro. Mas a senhorita, "mesmo com preconceito de cor", foi morar na colina com o "neguinho compositor". E desconhecido Luiz Carlos dos Santos, esse tal de Luiz Melodia, finaliza com "gostou do samba e hoje vive muito bem, ela devia nascer pobre também". Flauta e o vilão são instrumentos de maior textura nessa canção. O último álbum dele foi lançado em 2003. Dá para ouvir coisas dele no Luiz Melodia.
Sobre o dorso
viscoço do putim
repousa um talher
Flocos de gordura
salpicam minha pele
Um mendigo com
os olhos apagados
me chama
fingo não vê-lo
flocos de poeira
untam o putim
penso no calor
do teu ventre
nas matizes dos teus pêlos
no abismo que sois
o talher penetra na
gelatina da padaria
fica lívido, meu talher
um óleo cálido unta
meus lábios e
recordo do meu azedo dia
Elias acordou às sete. Na realidade nem tinha dormido direito. Ficou meio insone por causa da entrevista às 10h no centro da cidade.
A mulher dele, Anita, percebeu isso e se incomodou. "Vê se descansa um pouco, homê.", disse a mulher antes de sair para o bico de costureira que arranjou em uma casa do Jardim São Paulo, em Limeira. Antes de sair, tomou o cuidado de colocar o sapato do marido no sol para secar. Durante à noite Elias havia colocado a sola do sapato que estava em vias de cair.
"Hmm ficou bom...", suspirou, "Coitado, tomara que dê certo dessa vez", disse em pensamento Anita antes de sair.
Elias suava na cama, estava tenso para a última etapa da entrevista. Preferiu cochilar um pouco para evitar pensamentos idiotas.
Anita chegou no trabalho e contou orgulha para a patroa que o seu Elias ia conseguir um trabalho. Não demorou muito e Elias chamou Anita na porta do serviço.
Anita ficou surpressa ao vê-lo. Depois de uma conversa ríspida, ela voltou para sala e desabou. O únco sapato de Elias havia descolado inteiro. "Nossa, mas ele não tem mais nenhum par de sapato, Anita?", perguntou a patroa. "Não senhora, era único par, coitado. E ele tem vergonha de pedir emprestado. Brigou comigo porque quis dar dinheiro para ele comprar outro. Ele muito teimoso, dona Lúcia".
Elias tinha duas horas para conseguir R$ 50 emprestados, comprar um sapato 42 e ir para entrevista.
como são lindos
esses rapazes do ensino médio
com seus tênis sujos
sem o cadarço
são quase irreais
esses rapazes do ensino médio
com seu gel no cabelo
e aparelhos nos dentes
como são belos
esses rapazes do ensino médio
com aquelas calças de grife
folgadíssima no corpo novo
como me encantam
esses rapazes anafalbetos
do ensino médio
fumando maconha na Praça
antes de frequentar à sala de aula
como são gozados esses rapazes
do ensino médio
devorando bolachas recheadas e
socando uns aos outros
só para mostrar
seus músculos púberes para
as meninas que fingem não
gostar da agressividade
contuntende dos rapazes
do ensino médio
como são menores
esses garotos
do ensino médio
com seus hálitos
de Lotus misturado com aroma
da bala chita
são volúveis em suas crises
crises quase tocantes
quase sincera
quase lógica
como são senis esses
rapazes de ensino médio
secos como ameixas
bentos como prostitutas
de uma alegria rasa e
calcinante
Eternos dentro de ternos
brancos em dia de Crisma
tão lindos esses rapazes
do ensino médio
e êfemeros como um
cometa que passa rente
a minha janela
No Centro de São José dos Campos, na rua J.M Barros, mora um oftalmologista. Mas o local no qual o médico formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR) mora não tem CEP, número ou campainha. A casa do médico não tem tapete, tem carpetes. Na casa do médico não tem armário, porta-malas. Na casa do médico não há cama, há um banco de motorista. O Cytroen, ano 1997, é a residência oficial do doutor César há quase um ano. Uma depressão profunda após um pressão de separação draumático e uma alegada "operação de sabotagem" levaram o oftalmologista a morar na rua, dentro do seu carro branco. César tem uma filha de 18 anos. Mas prefere não manter contato. De vez em quando um sobrinho leva uma roupa para ele.
O guardado de carros da rua J.M Barros dignóstica: "é pobrema de cabeça, coitado". César usa uma calça branca, único vestígio de um dia foi um médico. Usa um óculos de armação rayban devidamente emoldurado com uma fita isolante preta que fixa a haste nas lentes. É magro, usa um suéter de feira marrom, sobre uma camisa pólo amarelo-suja. A cárie arrebentou-lhe os dentes. Não cheira mal, mas também não cheira bem. Com uma voz mansa conta, com lapsos sua história, e pede encarecidamente para não ser fotografado. "Vai me prejudicar ainda mais". Os cabelos brancos penteados para o lado demonstram uma sobra de vaidade. Mas o rosto é cansado como a memória que parece falhar, pergunta meu nome, sete vezes durante uma conversa de mais de 40 minutos. César não é exatamente um mendigo, não fala como mendigo, não se porta como tal. De alguma forma é carismático, ri baixo, sempre com a mão no bolso, e reside nele uma decadência elegante. Costuma se assear numa praça da região, usa banheiros de restaurentes e bares chinfris onde costuma comer. Diz receber uma espécie de subvenção de uma entidade médica do qual ainda é sócio. "Conta com a solidariedade destes colegas", pronuncia num tom formal, quando pergunto como ele obtém dinheiro para sobreviver. Todo seu patrimônio teria ido parar nas mãos de duas ex-esposas. "As mulheres são terríveis", arrisca um gracejo meio sem jeito enquanto caminha pela rua com seus passos miúdos de um homem de 1,65m. Aos 56 anos tem o desejo de vender uma casa na Vila de Industrial. Segundo o oftalmologista, foi a única coisa que lhe restou na vida. Ao dizer isso pergunta meu nome mais uma vez. "Não gostaria de ver uma reportagem sobre mim, não sou mendigo. Estou passando por uma situação difícil... (pausa). Pretendo recomeçar minha vida em São Paulo. Acho que você pode escrever sobre moradores de rua, não citar meu caso. Nesse tempo que vivo por aqui vejo muita gente sofrendo por falta de assistência pública. Não é o meu caso, acho que se você focasse nisso (tira as mãos do bolso e faz um gesto em forma de garra) seria muito mais benéfico e ajudaria pessoas que realmente precisam de ajuda", discursou. Despediu-se afavelmente.
Acordei com uma batida no vidro do caixa eletrônico. Parecia um vigia com cara de mendigo, devia ser por causa do sono e do frio violento que fazia naquela madrugada de quarta-feira na Rodoviária de São José dos Campos. Despertei meio assustado e me deparei com vigia, um sósia do Lou Reed, com olhar pesado sobre mim. Não disse nada, levantei abri à porta de vidro do caixa eletrônico e obedeci a ordem silenciosa do sujeito. São José dos Campos começava mal. Chovia grosso quando resolvi entrar na cabine do banco Itaú para me esconder do frio às 3h.
Não havia muito dinheiro para o hotel. Zanzei por meia-hora dentro da rodoviária, porém nenhum lugar lembrava aconchego ou era suficientemente quente. Encostei na parede e, de pé, resolvi dormir. Mas minhas pernas me cansavam. Tudo fedia a urina de doente, a fezes de pompo e guimba de cigarro acessa. As pernas não resistiram a solução, os pés reclamaram e me arrastei até os taxistas. Barba mal feita, desconfiado e mal educado o taxista disse que não tinha idéia do quanto o hotel cobrava o pernoite. Vai lá e pergunte, sugeriu. Ergui o corpo pendido e levantei o tronco da altura da janeila do carro e caminhei do lado oposto sem agradecê-lo e insultá-lo pela resposta cretina. Chovia e não havia como chegar sem se molhar e pegar uma pneumonia.
Resolvi atravessar a praça escura que envolve a rodoviária mesmo assim. "Oitenta reais". "Não tem como". "Tem outro hotel, vê se eles podem te ajudar. Boa noite". No outro hotel o mesmo discurso. A chuva pirorou e eu não tinha a porra dos R$ 80 para pagar uma noite. Eram 4h e eu tinha que estar no jornal Vale Paraibana para o teste às 9h30. Seria um desperdício gastar essa grana. Contudo, o clima hostil me empurra para necessidade. Num acesso de humanismo superficial, o atentende do outro hotel havia dito que havia uma pousada com o preço mais em conta naquela mesma rua. Quinze pratas. Nunca havia dormido num lugar tão fetido, imundo e doentio como aquele. Uma cama de solteiro forrada com um tecido fino e transparente. O colchão tinha arremedo de espumas.
Tudo exala um odor acre. As paredes eram divisórias. Havia uns seis quartos criados num corredor estreito e lúgrubre. Dava para ouvir a respiração e o ronco dos hóspedes. Privacidade zero. Fiquei com nojo de deitar naquela cama. Pensei em pulgas mordendo meus olhos, em baratas roendo minha boca e pernilongos entrantando pelo meu nariz. Resolvi apenas sentar e manter o mínimo contato possível com os objetos. Cheirei meu blazer, parece que aquele esgoto havia impregnado na minha pele. Sentia me esponjoso e árido por dentro. Minha boca secou. Um cansaço homérico me envolveu.
"Deixa de viadice, dormi ai", meu lado B reclamou. Não reagi e dentei de lado. Quando encostei a cabeça no travesseiro amarelado e surrado, relaxei absurdamente. Acordei às 8h com cheiro de sabonte vindo do "corredor" e um homem reclamando do tempo chuvoso. "Com essa chuva é ruim achar serviço, hein!?", chiou num forte sotaque nordestino. Amassado, faminto e surpreso por ter me permitido dormir naquele pardieiro sai do local igual a um fugitivo. Um velho me olhou com profunda curiosidade ao me ver descedo as escadas e deve ter se perguntando quem era aquele preto de blazer de brechó, cabelo encaracolado, barba feita e com uma mochila vermelho-rubi e preta nas costas que dormiu naquele canto voltado apenas para sub-empregados. Se ele me perguntasse eu diria: "eu sô um sub-empregado também".
A chuva persistia lá fora. O recepcionista do hotel avisou, gentilmente, que eu poderia ficar mais tempo. "Obrigado". No banheiro da rodoviária um homem ajeitava o cabeo e minha imagem no espelho fez ele se apressar e sair. Olheiras, roupa amassada, meio ridículo com aquele cachecol cinza e cabelos desgrenhados. Estava com uma cara de ressaca. Tomei um capuccino e peguei um táxi até a rua Samuel Wainer, no Vale. Eram 9h30 e perguntei pela Sheila, secretária de redação. "O pessoal chega só às 10h30", informou em tom protocolar a recepcionista. Esperei mais uma hora e enquanto isso achei o bar do Pepe no Jardim Augusta. De família portuguesa Pepe é fanático pelo Santos, me contou sua história enquanto me servia um chocolate-quente morno.
Voltei ao Vale, dessa vez entrei na redação. Fiquei impresionado com a estrutura. Algumas pessoas passavam e curiosamente você sabia exatamente quem era os jornalista e quem não era. São sujeitos singularidades, manias, trejeitos e de gestos ostensivos, mesmo que sejam pequenos. Não gostei da matéria que fiz. Informei ao editor, mas agradeci a oportunidade e acolhida do pessoal da redação. Foram solidários como meu teste. Voltei puto com o meu desempenho. Havia fracassado. Fiz uma texto protocolar sobre classificação de um projeto social em programa da Petrobras. Agora fazia calor e eu já estava há oito horas em São José dos Campos. "Não volto nessa porra". Tô indo na segunda-feira para lá para o segunda etapa do processo de seleção. Agora, é por um período de três meses. Vou ter que dar um tempo nos trabalhos de assessorias em Limeira e investir nesse novidade que se chama Vale do Paraiba.
O procurador da República, Fausto Kozo Kosaka causou uma fausta dor de cabeça para o vice-prefeito de Limeira, Orlando Zovico e proprietário da TV Jornal. Na segunda-feira, informa a coluna do Daniel Castro na Folha, o procurador abalou a República do vice-prefeito ao entrar com uma ação cívil pública pedindo a cassação da emissora.
Uma porrada sem precedentes no maior império da comunicação de Limeira e um dos maiores do Interior do Estado.
O motivo não é difícil adivinhar. Programação de baixa qualidade, que não execer a função educativa, que é prerrogativa também de uma emissora mista, e segundo relata o colunista da Folha por exibir "cenas de nudez, sexo, violência explicita" no programa "A Hora da Verdade".
Castro ainda ironiza o programa: "suposto líder de audiência regional".
Por incompetência ou ignorância, o colunista só não disse que o DNA desumano tem como pai, o apresentador Geraldo Luis, hoje na Record.
Apesar de estar embasado, ação deve acabar em multa ou em acordo com a Procuradoria. Fechamento é um blefe. Zovico, chegou a admitir em entrevista ao colunista, que alguns programas cometem deslizes.
"A Vida dos Outros" foi o último filme que me emocionou.Fábio Shiraga e eu entramos na sala do CPFL em Campinas atrasados e o ator Ulrich Tukur no papel de Anton Grubitz já começa a investigar a vida do maior dramaturgo da Alemanha Oriental. Era impossível ficar alheio a expressão sombria e melancólica do ator. Lembrei dele ao entrar na garagem do shopping de Limeira hoje. O segurança era cópia do espião alemão. Quem passar por lá e filme o filme, preste atenção.
Leio 1808, do jornalista Laurentino Gomes, um livro-reportagem sobre a fuga da família real portuguesa para o Brasil, após o imperador da Europa, Napoleão Bonaparte, ameaçar a atrasada, carola e conservadora corte do rei Dom João.
O livro revela sem a tinta pesada do academicismo, por emplacar uma narrativa jornalística cadenciada, o improviso da fuga da corte e o misto de indignação e surpresa dos súditos ao flagrarem o rei português tomar o caminho do Atlântico para não ser derrubar pelo monarca da europa.
A fuga foi patrocida, de maneira forçada, pelos ingleses. Quando as tropas francesas e espanholas, compostas principalmente por mercenários, invadiram Lisboa, segundo relata o livro, o grupo parecia mais um exército de esfamiados do que guerreiros do reino napoleônico. Sem uniformes, famintos e fracos, os homens de Napoleão roubaram a prata e ouro que sobrou da aristocracia. Eles derrubaram a dinastia sem dar um único tiro e sem ter forças para lutar.
Enquanto isso, o rei estava em alto mar numa viagem que duraria mais de 60 dias até chegar ao Rio de Janeiro.
Estou infeliz por você
eu não consigo evitar
é que você nem percebe
mas fomos assaz
para não
escolher nada
entenda, é só um desespero
de meio de tarde
dói como acordar
e não ter dinheiro para
tomar café da manhã
todo mundo julga que
fomos duros demais conosco
Eles ignoram...
de fato eu me sinto infeliz por você
nunca mais vou poder
expelir nossa cumplicidade
tão latente
tão enérgica que às vezes
achei imoral
mas é que ando infeliz mesmo, baby
você nem percebeu
nosso gesto suicída
e anda ai tão contente
mas deixa que eu me encarrego
de ser triste
pelo que somos
Filme de baixo orçamento,Vozes Inocentes (2004), conta a história do salvadorenho Oscar Torres, é em grande parte ingênuo do ponto de vista da produção, não convence com figurinos, com o vilarejo construído artificialmente, contudo o enredo consegue ser arrebatador ao tratar de um tema tão cruel: o recrutamento de crianças para guerra. Lembrou no ato o melhor livro-reportagem, pelo menos eu considero, do repórter Caco Barcello, Revolução das Crianças. A história é contada no olho do furação da revolução sandinista na Nicaragua. Vozes Inocentes conta com um elenco-mirim que dá o recado de uma maneira honesta. Precedeu de algum modo o chileno Pedro Machuca, ao retratar o ponto de vista de uma criança de 11 anos sobre os assombros (violência da guerrilha) e as maravilhas da vida (a primeira paixão) em meio a conflito armado.
O gaúcho Kiko Freita se apresentou ontem com o som simpático do cantor João Bosco no Sesc Piracicaba. Kiko era um sujeito a parte no palco. Persuasivo na bateria, vibrante em cada movimento e espontâneo com seu talento furioso. Impressionante a performace dele. Foi mais aplaudido que o simpático João Bosco.